domingo, 13 de junho de 2010

As celebrações da vida


Ontem, pleno Dia dos Namorados, parei atrás de um senhor na fila de frios do supermercado. Pediu salsichas. “Não. Coloque menos, por favor”, disse à pessoa que o atendia e virou-se para mim: “Só a minha mulher comia salsichas comigo. Ela morreu há dois anos depois de vivermos 51 anos juntos. Minha filha que mora comigo prefere não jantar. Faz dois anos que não tenho companhia para comer salsichas.”

O que eu poderia dizer? 51 anos é mais do que eu já vivi. Por um instante me imaginei partilhando a vida e salsichas com alguém por mais de meio século, mas o homem voltou a desabafar comigo: “Não tem nenhum dia em que eu não pense nela. É duro, viu? Não é só a salsicha, ela fazia uns doces maravilhosos. A menina que trabalha lá em casa também faz, mas não é a mesma coisa.”

Não, não é. Ele sabe que não são doces nem salsichas que lhe fazem falta, mas a pessoa a quem essas coisas remetem, alguém com quem partilhou 51 anos de caminhada e que não voltará. Mesmo assim, ele precisa jantar salsichas e comer doces para celebrar os momentos que ele teve e que atestam que ele viveu.

Todos nós precisamos de celebrações próprias para marcar alegrias e tristezas, celebrações de chegadas e de adeus. O problema é que não temos esse costume. A internet, o telefone, o shopping center acabam se tornando os altares para expurgar nossas dores. Não temos uma celebração para o fim de um namoro, para um divórcio, para a perda de um emprego nem para os pais que sofrem um aborto, por exemplo.

Quando sofri o fim de um lindo namoro, minha amiga Beth percebeu o tamanho da minha dor e se ofereceu para, no Dia dos Namorados, fazer sua especialidade na minha casa, uma lasanha com manjericão. Com a minha mãe, compramos juntos os ingredientes e cozinhamos aquele prato. Em volta de uma bonita mesa, comemos e bebemos. Sempre debochada, Beth tirou sarro da minha situação, fez piada da vida e nos empanturrou com uma maravilhosa massa. Ela foi a sacerdotisa daquela celebração que marcou o fim de uma bela parte da minha vida. Revigorado, recobrei esperanças, realimentei sonhos, continuei a vida e vivi histórias ainda mais belas do que aquela que havia deixado para trás.

A partilha do pão com os amigos é a nossa maneira de agradecer aos céus por tudo de bom que vivemos, tudo de belo que somos e tudo de importante que perdemos e tivemos de deixar para trás. Levantar uma taça de vinho serve também para encerrar algo maravilhoso que vivemos e já não temos, não para lamentar, mas para transformá-los em tinta a fim de escrever capítulos ainda melhores que os passados, mesmo que nunca iguais. Nossos banquetes de despedida devem celebrar a vida e dizem mais a nós mesmos do que a qualquer outra pessoa. Por isso, o prato principal pode ser caviar, pizza, lasanha ou salsicha.

por Fábio Reynol

Fonte: diariodatribo.blog

3 comentários:

Fatima disse...

Lindo texto Ely!
Bjs e uma ótima semana pro cê!

Tataahzinha disse...

Texto maravilhoso, e de fato foi uma bobeira muito gostosa de ler.
Esses amores que duram uma vida. Não sei se me sinto feliz ou triste por ter medo de não saber se terei a oportunidade de viver algo assim.
No mais, adorei o relato da sua experiencia.
Beijinhos!

Sammyra Santana disse...

Meu Deus, que texto lindo!
confesso que as lagriminhas saltaram ao ler...
eu quero ter um amor assim como o desse senhor, pra vida toda!
Amei!
Beijoooooooooooo

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