sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Love Story - História de Amor

AMOR E ÓDIO: O "DETERMINISMO MÁGICO ÀS AVESSAS" DE "LOVE STORY"
O cinema americano é conhecido pelos seus finais felizes. Especialmente os filmes românticos. Na narrativa clássica, as pessoas encontram um obstáculo bem definido e o resolvem no final. Mas Love Story não é assim, mesmo sendo um grande sucesso de público nos EUA. Love Story segue a fórmula infalível dos filmes românticos, mas desde o começo, o fatalismo é evidente. Todo o filme é um flashback, com Oliver (Ryan O’Neal) sentado na neve pensando em tudo o que aconteceu desde o seu encontro com Jenny (Ali MacGraw).

O começo do filme é espetacular. "O que se pode dizer de uma garota que morreu aos 25 anos? Que era talentosa, que tinha um grande futuro pela frente? Que gostava de Bach?". Ou seja, desde então, já sabemos da morte de Jenny.

O filme registra o primeiro contato entre Oliver e Jenny de forma bastante original. Objetivo, através de fragmentos, pedaços de contatos, o filme sugere a efemeridade da memória, a necessidade de se dirigir rapidamente para o desenvolvimento do relacionamento em si, que é o que mais interessa a Hiller. A câmera está sempre centrada em Oliver, de forma que a narrativa nunca é onisciente, mas sempre temos a visão de Oliver da história, já que é ele quem a está contando para nós em flashback (ou mesmo só se lembrando dela).

Jenny é uma menina inteligente, de classe média média, que tem um sonho de estudar música em Paris. Acaba encontrando Jenny numa biblioteca, e sinaliza diretamente para ele, embora ela seja conhecida por dificilmente ter relacionamentos, ao contrário de Oliver, um rapaz rico, bem enturmado por ser jogador de Hóquei, mas nem tanto inteligente. Não podemos dizer que os dois são opostos, mas existem diferenças importantes entre eles, especialmente pelo tipo de educação que tiveram. No início, Jenny trata Oliver com muita ironia, mas o contato se estabelece rapidamente.

Um ponto bem explorado do filme é a dificuldade de Oliver no relacionamento com seu pai. Oliver tem vergonha do mundo torpe e rico, quer fugir da responsabilidade de ser o filho de fulano, e quer ter a sua vidinha, conquistar o seu espaço. Oliver quer desafiar o mundo dos pais, ser o filho rebelde e se afastar dele. Por isso, o questionamento de Jenny quando Oliver faz questão de apresentá-la aos pais e o constrangimento é grande. Talvez Oliver goste tanto dela exatamente por ser pobre e o casamento com ela de certa forma poderia representar uma afronta ao pai. Este conflito é representado brilhantemente na cena em que Jenny pede a Oliver para falar com o pai pelo telefone e ele se recusa. Nesse ponto, percebe-se que o ódio que Oliver tem pelo pai é quase tão grande quanto (ou é igual a) o amor que sente por Jenny. Essa é a única briga do casal.

O casal passa dificuldades, especialmente com dinheiro, mas Oliver insiste em não pedir ajuda ao pai. Ele quer conquistar tudo por seu próprio mérito, e assim aparentemente o consegue, com uma boa vaga em um escritório famoso. (Mas como o pai ainda preza muito o filho, e parece entender a sua escolha por seguir um caminho próprio, existe a possibilidade de o garoto ter conseguido a vaga pela influência indireta do pai, pois todos sabem que ele é o filho do fulano). Mas o diploma em terceiro lugar em Harvard diminui (ou suaviza) a possibilidade dessa tese.

Quando tudo parece afinal estabilizado, vem a notícia, seca, sem explicações, de repente, que caracteriza bem o absurdo da vida: Jenny vai morrer. E no seu último dia antes de ir para o hospital morrer, Jenny não quer realizar aqueles sonhos loucos de adolescente de visitar Paris, mas simplesmente quer ter um dia ao lado da pessoa que mais ama no mundo, um dia como qualquer outro. E eles fazem coisas aparentemente comuns: patinam no gelo, fazem compras. Jenny pergunta se eles têm grana para tomar um táxi. Oliver responde: "Claro! Para onde você quer ir?". A brilhante resposta é seca, imediata: "Quero ir para o hospital.". Depois daquela despedida, Jenny estava pronta para morrer. Não há escândalos ou gritos de ambas as partes. Jenny e Oliver estão conformados com o destino que é incontestável.

Nesse ponto, Oliver é obrigado a responder a pergunta.O que vale mais: o amor à Jenny ou o ódio e o seu orgulho ante seu pai ? Oliver opta pelo amor, humilhando-se ao pedir ao pai dinheiro para ajudar Jenny no hospital. Oliver não conta o verdadeiro motivo e diz que está enrascado com uma amante. A cena é seca. O pai imediatamente faz o cheque, Oliver recebe e vai embora sem lhe despedir.

No hospital, o pai encontra Oliver, quando descobre o real problema. Jenny acabara de morrer. Mesmo assim, o filho ignora o pai. Esse ódio do filho para com o pai é um contraponto ao amor de Oliver por Jenny. Mesmo no final, a conciliação entre os dois é impossível. Oliver se senta sobre a neve, onde antes tinha passado momentos incríveis com Jenny. O paralelismo nos faz lembrar de uma poética cena anterior em que o casal faz bonequinhos de neve, e atiram bolas de neve um sobre o outro.

O final infeliz e a dissolução do núcleo familiar da classe alta norte-americana reflete que Love Story não é tão ingênuo quanto parece. O filme revela uma faceta de decomposição do "american way of life". Claro que é um filme romântico, comercial, à moda dos estúdios norte-americanos, mas apresenta algumas características que nos faz pensar sobre as transformações do modo de vida e das aspirações dos novos adultos americanos. O desencantamento e o ódio e a procura por uma identidade própria que os liberte do domínio dos pais é retratado com muita sensibilidade por Hiller. Economicamente, o garoto se estabiliza, consegue vencer sua luta, mas o filme apresenta os custos dessa caminhada com mais intensidade que a média dos filmes convencionais da época. E quando tudo parecia caminhar para um desfecho agradável, surge a revelação da morte. O "determinismo mágico" dos filmes hollywoodianos é virado de cabeça pra baixo. Love story é um "determinismo mágico às avessas". Nos filmes americanos, quando tudo parece que vai dar errado, acha-se um final feliz. Aqui, acontece o contrário. E esse fatalismo reflete, de forma um pouco ingênua em comparação com o cinema de Altman e Scorsese, mas de forma significativa, os medos, os traumas e as dificuldades de buscar um novo rumo dos novos adultos americanos.
Texto: Marcelo Ikeda.
http://www.geocities.com/Hollywood/Agency/8041/lstory.html



Premiações:
- Ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora, além de ter sido indicado em outras 6 categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Ryan O'Neal), Melhor Atriz (Ali MacGraw), Melhor Ator Coadjuvante (John Marley) e Melhor Roteiro Original.

- Ganhou 5 Globos de Ouro, nas seguintes categorias: Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz - Drama (Ali MacGraw), Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Ator - Drama (Ryan O'Neal) e Melhor Ator Coadjuvante (John Marley).
http://www.adorocinema.com/filmes/love-story/love-story.asp

Um comentário:

Não Somos Apenas Rostinhos Bonitos disse...

Noosssaaaaaa....quanto tempo não víamos a imagem desse filme!
Beijocas,

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